Os Dois Finais de Ulisses

 

“(…) levantou-se, pois, e foi ter com seu pai. Estava ainda longe, quando seu pai o viu e, movido de compaixão, correu-lhe ao encontro, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou.

O filho lhe disse, então: Meu pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho.

Mas, o pai falou aos servos: Trazei-me depressa a melhor veste e vesti-lhe, e ponde-lhe um anel no dedo e calçado nos pés. Trazei também um novilho gordo e matai-o; comamos e façamos uma festa.

Este meu filho estava morto, e reviveu; tinha se perdido, e foi achado.”

 (Lucas 15, O filho Pródigo)

I. “Lá e de volta outra vez”

“Marge, você precisa de um bom café da manhã. Irei lhe preparar alguns ovos(…)”. Essa é a reação de Norm quando vê sua mulher acordar de madrugada para ir trabalhar como policial. Ela que, grávida, terá de o deixar em casa para ir lidar com três homicídios. Antes, porém, seu marido se dispõe prontamente a lhe preparar um bom café da manhã.

Assim é, pois, Marge, a heroína em Fargo(1996), filme de Joel e Ethan Coen: uma policial com um bom marido e um bom café da manhã, que por vezes tem de deixar a  gentileza de Norm pela hostilidade de homicidas. Não é à toa, aliás, o nome de seu marido; é precisamente isto que ele significa a Marge: sua normalidade. E tão forte é essa normalidade que pode Marge distar bastante dela, visitar ainda os limites da anormalidade e, sustentada por esse centro que a puxará de volta a si, mesmo diante de seu oposto, mantém-se como é: Marge, mulher de Norm, policial, grávida.

 

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II. “

 O completo inverso, se esse for possível, é a estrutura de Llewin Davis em “Inside Llewin Davis”(2013), dos mesmos Irmãos Coen. Para ele, não há normalidade alguma. Já está tão fora de casa que não lembra mais o caminho de volta. E se tinha a policial um café da manhã esperando por ela, Llewin tem no máximo um ou dois cigarros na carteira, que pediu emprestado na rua. Ele, aliás, assim como Marge, está esperando um filho. Por sua vez não irá esperar muito tempo – preferiu o aborto –.

Não tem uma casa esperando por ele, e, do contrário, precisa ficar à procura de um sofá diferente na casa de amigos (que ele detesta) todo dia. Sempre tendo de arrumar um novo centro, vive, pois, uma completa e agonizante anormalidade.

Assim é Llewin Davis: cantor fracassado de folk, desabrigado, em sua desventura de uma semana pelo mesmo bairro onde também se aventurou Bob Dylan Greenwich Village. Um típico idiota: é voltado a si e crê ser dever de todo o resto curvar-se também ao mesmo ponto. Arrogante, auto-presumido gênio e fracassado.

III. “wouldn’t mind the hanging”
 

O filme é cíclico, começa com a mesma cena que se repete no fim. Que é: Lewin Davis dá seu show padrão de Folk, com ora uma música de Suicídio (“Hang me, oh Hang me”), ora uma de um amor frustrado (“Fare the Well”). É aplaudido ao término e deixa o estabelecimento para logo na porta ser espancado violentamente e sem razão aparente. Esta é dada apenas no final – tratava-se do marido de uma senhora que se apresentara na noite anterior e fora humilhada de forma completamente descabida por Llewin.

No início a cena é interrompida logo no final da surra. A sarjeta em que estava caído se dissolve suavemente no corredor do apartamento dos Gorfein’s (amigos que o hospedaram essa noite) dando foco a um gato alaranjado indo em direção a Llewin acordá-lo. Aí começa um aparente flashback voltando uma semana ao passado. Nesse flashback consiste, pois, o desenrolar do filme.

Ao deixar o apartamento, o gato de seus amigos escapa junto a Llewin, obrigando-o a cuidar dele até poder devolvê-lo aos donos.  Logo em seguida uma personagem importante é introduzida: Jean Berkey. Uma ex-namorada que o odeia e namora com Jim Berkey, outro músico (de mais sucesso que Llewin, a quem ele também detesta). Eis que Jean está gravida e não sabe bem se de Davis, por uma transa qualquer, ou de seu namorado. A mera hipótese de ser Llewin o pai, por sua vez, já lhe é razão suficiente para querer fazer um aborto que ele terá de pagar –  o que fará sem grandes preocupações –.

Quando deitado no sofá de Jean, o gato pula no colo de Llewin, que inusitadamente pergunta: “qual é mesmo o seu nome? ”. Súbito, o gato foge pela janela, deixando Llewin sem resposta e em desespero, a procurá-lo, sem sucesso.

Desespero esse que logo tem seu fim. Conversando com Jean numa cafeteria qualquer, Llewin olha à rua e vê o gato; sai correndo em sua direção e o alcança. Ao voltar, agora aliviado, tem um diálogo digno de ser salientado com Jean. Acusa-a de “careta” por querer ter uma família e mudar para o subúrbio, ela replica chamando-o de “perdedor”. Ao que ele responde dizendo que não divide o mundo em categorias (tendo acabado de fazê-lo). E segue afirmando que “só há dois tipos de pessoas: os que dividem o mundo em dois tipos de pessoas e…”quando é interrompido por Jean que completa: “os perdedores”.

IV. “A folk singer with a cat”

“Lord, I’m one, Lord, I’m two, Lord, I’m three, Lord, I’m four

Lord, I’m five hundred miles a way from home

Not a shirt on my back, not a penny to my name

Lord, I can’t go back home this-a way”

 

No decorrer do enredo, Llewin, contente em ter reencontrado o gato, o devolve para os Gorfein’s que o recebem para jantar. Os Gorfein’s, do contrário de Llewin são pessoas muito gentis, porém, tão exagerada é essa gentileza que os torna tão intragáveis quanto ele. Da convivência de tão contrastantes, porém equivalentes, personalidades, surgem, como é de se esperar, alguns aborrecimentos. Llewin é arrogante despropositadamente, troca insultos desnecessários. Mas eis que: não era o gato deles, mas uma gata qualquer.

Torna, pois, a Llewin o desespero que dele há pouco se apartou. Então são introduzidos, de modo abrupto, dois personagens à altura do caos instaurado em seu estado de espírito. Ao decidir encarar uma última grande viagem, acaba pegando carona com dois sujeitos excêntricos – Johnny Five e Roland Turner–. Duram pouco tempo no filme, já que apenas acompanham Llewin até Chicago, onde ele irá a uma gravadora. Porém, como em tudo já feito pelos irmãos Coen, tal episódio não se dá à toa.

Roland Turner é uma figura tão ridícula quanto misteriosa. Dorme a maior parte do tempo, usa duas bengalas para se locomover – é completamente anormal –. A relação mais clara que me veio é que se trata de uma referência ao anjo caído – Lúcifer –, que, no lugar de duas asas inutilizadas, tem suas pernas. Em uma troca de insultos específica, Roland ainda confessa a Llewin que é um praticante das “artes negras”. Acusou-o de careta, mostrando ser ainda mais “perdido” que o próprio – sem falar no propósito a que serve: levar Llewin para ainda mais longe de casa –. Nessa mesma troca de insultos, aliás, ele chega a jogar uma pequena praga em Llewin Davis, diz que ele um dia irá acordar e dirá a si mesmo: “ Por que eu carrego essa dor comigo? Por que nada dá certo em minha vida? Minha vida é um monte de merda, eu não me lembro de ter feito esse monte de merda.”. E segue concluindo que, quando estiver passando por essa crise, estará Roland bem longe rindo até morrer. Como vemos posteriormente, a praga acaba por se concretizar.

Entretanto, a figura de Johnny Five é talvez ainda mais misteriosa. Ele não diz quase nenhuma palavra para Llewin, e sai de cena de modo ainda mais repentino do que entrou. Quando é levado por um policial no meio da estrada. No meio tempo, porém, há uma interação marcante:

Johnny começa a lançar algumas palavras aleatórias, fazendo menção ao poeta Peter Orlovsky. Que, talvez, seja a verdadeira identidade do próprio Johnny. Dado que Orlovsky, antigo companheiro amoroso de Allen Ginsberg, provavelmente não estaria muito longe de Greenwich Village naquela época, além da semelhança física de ambos. Ele então começa a ler um poema anotado em um caderno (dando a entender que tinha sido escrito por ele) chamado “My Bed is Covered Yellow”, parte da série dos “Clean Asshole poems” do próprio Orlovsky. Eis um trecho do poema:

       My bed is covered yellow –

 

“[…]

Oh bed, only for man & not for animals

       yellow bed when will the animals have equal rights?

Oh 4 legged bed off the floor forever built

Oh yellow bed all the news of the world

       lay on you at one time or another”

É, em suma, uma espécie de ode feita pelo poeta à sua cama. Cama que é feita apenas ao homem e não aos animais, e onde todas as notícias do mundo, uma hora ou outra, a ela irão se curvar, e nela encontrarão repouso, pois ela aguenta todo o peso do mundo. Cama essa que Llewin, vale pontuar, não teve nem virá a ter em nenhum momento do filme. Posto que dorme somente em sofás aleatórios.

V. “It’s a folk song…”

Ao chegar finalmente a Chicago, após deixar Turner e o gato para trás, Llewin vai até uma gravadora em ordem de conceder uma última chance a sua carreira. Eis que tal chance não lhe rende nada além de outro fracasso. Dessa vez, fatal.  Em diálogo com o dono da gravadora, este aconselha Llewin a voltar com seu antigo parceiro—Mike –. Sem saber que ele, já há algum tempo, havia se suicidado. Llewin, porém, responde: “é um ótimo conselho”, sabendo, é claro, do destino desse seu amigo.

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Na estrada de volta, por sua vez, surge uma importante cena: Llewin se depara com uma placa apontando para Akron, cidade onde mora uma ex-namorada que havia engravidado dele já há alguns anos. Há pouco Llewin havia descoberto que esta não tinha feito o aborto que ele pagara. Ou seja: caso tomasse aquele desvio para Akron, poderia conhecer seu filho. Assim, ao recusar o desvio, Llewin perde, agora por decisão própria e não por privação da sorte, uma possível casa, uma possível cama – uma normalidade.

Tal despedida é perceptível na última música que ele toca no filme, por exemplo:

(…)Muddy river runs muddy and wild

 You can’t give a bloody for my unborn child

Fare thee well, my honey, fare thee well

Just as sure as the birds flying high above

Life ain’t worth living without the one you love

Fare thee well, my honey, fare thee well”

Eis que alguns segundos após ter se desviado dessa possível normalidade, Llewin é surpreendido por um gato na estrada, e acaba por atropelá-lo. Ao descer do carro, vê sangue no para brisa e olha para trás contemplando a sombra de um gato cambaleante adentrando em uma floresta escura, à beira da estrada. Ora, seria esse o gato inicial ainda perdido? Ou seria, do contrário, a falsa gata?

Logo em seguida nos é dada a resposta: Llewin volta derrotado para Nova York e, agora, decidido a desistir. Torna novamente aos Gorfein’s, onde lá encontra novamente o gato. O casal explica contente que havia retornado por conta própria. E a nós finalmente é revelado o seu nome, detalhe central ao resto do filme: Ulisses.

Explico: ao escutar esse nome tudo se tornou, se não claro, menos escuro. O enfoque dado à figura do gato não era, afinal, despropositado. Eis que o filme monocromático e frio se rompe justamente no alaranjado do gato Ulisses –  nome do primeiro aventureiro, do personagem de Homero, o primeiro poeta –. Que, por sua vez, é também, um exemplar típico do esquema de Marge em Fargo: aventura-se, perde-se, por vezes, mas no final torna a casa em Ítaca e se normaliza. O gato, é claro, voltou para casa depois de suas próprias desconhecidas aventuras.

Mas, considerem: assim como há dois gatos, o original que voltou para casa e o falso que se perdeu na beira da estrada, há dois Ulisses: um que mudou e voltou para Ítaca e outro, falso, que permaneceu se aventurando até adentrar, por vontade própria, nos portões do inferno cristão –  onde se perdeu eternamente. Assim como faz o falso gato. Que, vale notar, é atropelado por um carro, não tendo a menor chance de sobreviver. A cena dele caminhando como uma sombra em direção a uma escuridão deve, assim, ser entendida como uma alegoria à entrada no mesmo inferno do segundo Ulisses.

Volto: que Ulisses foi ao inferno? Se o de Homero foi salvo, qual perdeu-se?

Ora, o falso. O Ulisses de Dante Alighieri.

Na Divina Comédia, Dante, o peregrino da eternidade, encontra no inferno um Ulisses condenado que nunca tornou para sua esposa e filhos. Mas que, do contrário, aventurou-se até a última e perpétua aventura. Foi até o hemisfério sul, onde adentrou nos portões da eterna anormalidade: o reino da morte.

Assim descreve sua sina a Dante, o próprio Ulisses:

“Nem doçura de filho, ou que se apieda

do velho pai, nem o devido amor

que Penélope então fizera leda,

 

vencer puderam dentro em mim o ardor

que eu tive em me tornar do mundo experto,

e dos humanos vícios e valor; “

 (Canto XXVI – tradução de Vasco Graça Moura)

Para esse Ulisses, nem a piedade do filho, nem o amor da sua mulher poderiam vencer o ardor e a vontade de perder-se desbravando o mundo. E por qual razão poderia Dante desviar tão intensamente da história original de Ulisses –  de que ele voltou para casa, que suas aventuras tiveram fim? A resposta para esse dilema, de aparência complexa, é particularmente simples. Por mais surpreendente que possa soar, Dante, o grande poeta florentino, nunca leu Homero, o primeiro dos poetas; os escritos deste eram inacessíveis ao florentino, estavam perdidos – além de Dante nunca ter aprendido a ler em Grego –. O que tinha o florentino de conhecimento da Odisseia é o que leu sobre a aventura de Ulisses em Lucano, Virgílio e, principalmente, Ovídio.

Então, sabia Dante apenas que Ulisses foi à Circe e que de lá saiu em outra aventura, dessa vez ainda mais perigosa. Mas não que chegou a tornar a Ítaca onde findou sua jornada. Por sua vez, Dante completou essa história cortada, com seu próprio fim, presumindo que o destino daquele aventureiro até ali perdido seria seguir se perdendo até aventurar-se ad infinitum no reino da morte – ou, por outra, continuar na anormalidade –. O que, considerem: jamais faria se soubesse do restante da história. Para Dante, Ulisses mantém-se estático e não muda, seguindo perdido, apesar da aventura.

Esse é, pois, um dos fatos mais curiosos da história da literatura: um único aventureiro, ainda o primeiro e maior, atingiu os dois mais extremos fins possíveis à aventura –  tanto a vida como a morte; tanto a normalidade como a anormalidade; tanto Ítaca como o hemisfério-Sul; o paraíso como o inferno.

VI. “ …it never get’s new…”

Lá pelas tantas, o crítico literário canadense Northrop Frye explica, em sua palestra intitulada “A Imaginação Educada”, que a literatura “ nos dá uma experiência que nos estende verticalmente até as grandes alturas e as grandes profundezas do que a mente humana é capaz de conceber; até aquilo que corresponde aos conceitos religiosos de Céu e de Inferno.”. Tendo como objeto de ofício o reino das possibilidades humanas, a literatura terá que as mais extremas dessas possibilidades são correspondentes aos dois caminhos fatais desenhados por Cristo: o caminho da vida e o caminho da morte.

Sim, há variantes. Mas, insisto, no fim, tudo torna a este mesmo elemento de decisão: a perdição e o encontro; a comédia e a tragédia; o Jazz e o Folk suicida de Llewin. Tal fatalismo condiz com aquele posto por Jean e Llewin na cena do café. Que é tão somente uma tradução desses dois reinos, já há muito desbravados por Ulisses. Há, pois, dois extremos fatais para a humanidade, dois tipos de pessoas, e esses são os caretas que se encontram e normalizam e os perdedores que se perdem.

Por outro lado, em nossa realidade dependendo do que viermos a escolher dessas possibilidades, jamais conheceremos que fim se dará sobre as que rejeitamos. Porém, em se tratando de imaginação, lidamos com possibilidades – não nos limitamos ao ato–. Através da imaginação, é possível viver E morrer ao mesmo tempo, como fez Ulisses. Como diz, aliás, o clássico experimento do gato de Schrödinger. Em que o gato, até que se abra a caixa para saber se o veneno disparou ou não, não está, segundo Schrödinger, vivo ou morto, porém vivo E morto. Já que, explica, ambas as possibilidades se igualam até ser dado o veredito da experiência. Assim também é o gato dos Gorfein’s, que é Ulisses: que vive E morre.

VII. “…Never Get’s old”

 

Insisto, eis o que importa notar: caso tivesse Dante conhecido o último destino de Ulisses – sua volta para casa –, teria provavelmente concluído um resultado diferente do inferno para sua alma. Foi justamente por ignorar o retorno a casa que só restou ao florentino presumir a perdição absoluta: pois sabia que quem não se encontra se perde.

Nos diz também Northrop Frye que as grandes obras, “ nos oferecem tanto a vista de baixo como a de cima, amiúde ao mesmo tempo com diferentes aspectos do mesmo episódio. Assim, há duas metades na experiência literária. A imaginação dá-nos tanto um mundo melhor como um mundo pior do que este em que vivemos, e exige-nos fixar o olhar em ambos.”. É, afinal, precisamente essa a função da imaginação: tornar-nos conscientes de nossas possibilidades, de nossos fins e permitir que sigamos o caminho que decidirmos, usando a imaginação como lanterna apontando os desvios, os atalhos e os caminhos sem saída. Ulisses seguiu os dois caminhos, e a partir dele sabemos a grande diferença entre o céu e o inferno, que é a diferença entre estar em casa e estar desabrigado – “como uma pedra a rolar”.

E essa é a mensagem que fica da desventura de Llewin Davis: um retrato preciso do inferno dantesco. Ao recusar seguir o desvio que o levaria a sua mulher e filho e atropelar o gato, Llewin vê o caminho da morte estampado e marcado em sua cara. Que lhe resta? Talvez seguir o conselho do produtor e se juntar ao seu velho parceiro, suicidando-se (o que, aliás, explicaria a insistência com a qual é posta a música de suicídio “Hang-me, oh hang me”).

Sim, já tem alguns séculos desde que Ulisses desbravou ambos os fins. Mas as coisas mudam, e é bem verdade que a nós já não falam com a mesma força os alertas de Homero e Dante Alighieri. A figura de um guerreiro grego já cria pouca, ou nenhuma, reciprocidade. Quem sabe seja diferente com um cantor de folk fracassado? Não sei. O que sei, porém, é que não, nem tudo muda. Algo se mantém, intacto, entre a nossa pobre época e a de Homero  – que é dito na grande conversação e que a nós pode ser dito com igual força –. E é a partir deste elemento permanente que os Irmãos Coen lançam sua luz: ao homem e sua escolha—ao homem e sua hora, como diz Mário Faustino –. Muda-se a arquitetura, mas mantém-se o lar, a normalidade, a “yellow bed”; mudam-se as faces, mas se mantém o herói. Da jornada de Ulisses e seu retorno a Ítaca ou perdição no inferno tem-se a mesma estrutura do mito – a norma, a aventura à anormalidade e a decisão: seguirei aventurando-me ou tornarei à norma? Continuamos indo lá, para voltar ou não. Que diferença faz se ao apartamento ou se ao castelo? Se a Norm ou se a uma cama; ou, ainda, se à morada interior de Santa Teresa?

Entre o perdido Llewin que se junta ao Ulisses de Dante e a careta Marge que toma café com Norm, os irmãos Coen já brincaram com várias outras dessas possibilidades: já fizeram, em “A Serious Man”(2009) não um homem que negou sua casa, mas uma casa que rejeitou o homem. Para, porém, voltar a ele no final, como no livro de Jó. Por sua vez, em “Burn after Reading”(2008), já se tem um filme sem casa nenhuma, onde não existe sentido, mas apenas meios desesperados a procura de um fim que não está lá. Um absurdo ao melhor modo “L’etranger” de Albert Camus. Não sendo à toa, afinal, entre o paraíso e o inferno tem-se, também, purgatório e limbo.

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“Que diabo, Norm. Não nos estamos saindo nada mal.”

 

VIII. “Far gone

“O bem não faz barulho, e o barulho não faz bem”

São Francisco de Sales

Llewin Davis viu os dois gatos, os dois Ulisses, e fez a escolha de qual modelo seguir. Não comerá ovos ou Bacon, não; nada. Restou-lhe uma reles sarjeta e cansaço, concretizando a praga que lhe fora rogada. Está lá, e não sabe a quem voltar outra vez. Pior; sabe e escolheu não voltar. Fiel, quase que linha por linha, ao choro do falso Ulisses de Dante. De fato; nem a piedade do filho nem o amor da mulher lhe foram suficientes. E se visse o mesmo Dante o filme dos irmãos Coen, certamente colocaria Llewin Davis entre as personalidades que enfeitam seu inferno, junto do falso Ulisses e também do falso gato. A nós é posto, de forma clara, a rota do inferno dantesco, que é, repito: esquecer o caminho de casa.

Na cena final de Fargo, Marge, a careta, tem um diálogo contrastante com um criminoso, que, de tão anormal, de tão “far gone”, lhe é completamente incompreensível. Pergunta ainda: “Por que você fez tudo isso?”, ficando, porém, sem resposta.  Até desistir e voltar para a casa de seu marido. E, no fim de Llewin Davis, tem-se ele a dar tchau ao seu agressor que, por sua vez, está voltando para sua casa, para sua mulher. Llewin está lá, já igualmente “far gone”, em uma sarjeta a escutar do lado de fora o show de ninguém menos que Bob Dylan. Este que, saindo do palco, e vendo Llewin daquela forma, de cima para baixo, certamente sentiria a mesma, digamos, curiosidade antropológica, de Marge e também faria seu inquérito:

“And how does it feel?
to be on your own,
with no direction home

A complete unknown,
like a rolling stone”

 

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